quinta-feira, novembro 02, 2006

Palestra do Dia de Finados Por CLÓVIS TAVARES

Palestra do Dia de Finados Por CLÓVIS TAVARES em 01/11/ 1981

Esta palestra e outras estarão em breve compondo
o livro ROCHA DOS SÉCULOS, que serão palestras
de Clóvis Tavares, reproduzidas no formato escrito. (FMT)


Estas notas da libertação são lembranças, estímulos na comemoração espiritual, singela, de coração para corações e de almas para almas, entre nós, recordando aqueles que recordamos sempre, recordando aqueles que estão na nossa memória, na memória do coração todos os dias da vida, e não somente um dia do ano.
Marcelo Gama foi um poeta gaúcho que viveu no final do século passado e morreu justamente em 1915, por um acidente no Rio de Janeiro. Marcelo Gama sofreu uma morte dolorosa, venceu tudo isso - as dores de além túmulo, padecimento, reajustou-se e nos traz uma palavra de beleza e de esperança:

Para quem ama e trabalha
a morte em si vem a ser
uma luz lembrando um dia
no instante do alvorecer

Que beleza! A morte não é aquela trágica noite, noite de fantasmas, noite de terror, noite de bruxas das lendas medievais. Marcelo Gama, que sofreu e que partiu entre dores da Terra, nos traz uma palavra de beleza e de esperança: “Para quem ama e trabalha” - quando os espíritos falam trabalho, lógico que eles falam em trabalho espiritual, a participação nossa, de cada um de nós, no trabalho do nosso Pai celestial. Jesus, aos doze anos, já estava em trabalho, e disse à Maria, sua mãe, que o procurava: “Não sabias que eu estava cuidando dos negócios do meu Pai?” Para aqueles que trabalham desde a infância, ou desde a adolescência, ou desde a juventude, ou mesmo na idade mais avançada, da maturidade ou da velhice, aqueles que pensam nos trabalhos espirituais, nos negócios do Pai, para estes a morte lembra “um dia no instante do alvorecer”. Para quem ama o trabalho, “a morte em si vem a ser uma luz lembrando um dia no instante do alvorecer”.
Noel de Carvalho, outro poeta destes que a literatura, a história da literatura oficial chama de “poetas menores” nos traz uma beleza maior:

Morrer é buscar na vida
nova forma em nova estrada
o corpo deixado ao mundo
é apenas roupa estragada.

É por isso que eles são chamados “poetas menores”, porque eles falam com a simplicidade do coração e todos entendem. Ele não querem mostrar que esse corpo tão pesado, esse corpo tão embonecado, tão embelezado, esse corpo que as pessoas querem conservar, e até usam processos químicos, imaginando descobertas cientificas futuras, querem deixar os corpos congelados em grandes urnas, a centenas ou milhares de graus abaixo de zero, esperando uma futura descoberta científica que possa restituir a vida ao corpo físico, à “roupa estragada”, uma idéia de perpetuar a vida física, um apelo tremendo ao corpo físico, uma idéia de que este é o corpo e este corpo é a vida, e o homem é o corpo e o corpo é o homem, e cada vez mais cuidados com o corpo. Quem não tem cuidado nenhum com o pensamento, com a alma, com o coração, com o sentimento, faz check up, na idéia de conservar a vida - ou como diz André Luiz, com uma palavra irônica mas bem verdadeira – “lutando bravamente contra a velhice”. Em nossos tempos são sempre cirurgias plásticas de mil coisas, de mil loucuras, de mil comércios, inclusive comércios que prejudicam a saúde física. A força de querer embelezar e conservar e eternizar uma roupa que se estraga

Jésus Gonçalves, amigo tão ligado à nossa Escola Jesus Cristo, como já falei tantas vezes, dá sua palavra, sua nota, sobre a grande libertação que é a morte:

A morte lembra viagem
rumo a júbilos distantes
para quem paga o pedágio
de serviço ao semelhante.

É muito bela a alegoria, a imagem. Ele lembra que a morte leva a “júbilos distantes”. Por isso é que muita gente não crê, porque as alegrias ainda estão longe, não são visíveis, não ouvimos o leve ruflar das asas dos anjos, nem ouvimos o som dos risos, nem a beleza das luzes, nem as músicas distantes, belas, puras, das regiões celestes. Por isso não cremos nestas alegrias espirituais. Nós vivemos aqui, sufocados pela injúria do materialismo que domina tudo, e não sentimos, não temos olhos para ver, não temos ouvidos para ouvir as belezas dos planos mais elevados. Mas diz São Paulo: "O que os olhos nunca viram, os ouvidos não ouviram, o coração humano nunca sentiu, Deus preparou para aqueles que O amam". Vede que beleza de imagem, que esplendor de promessa, que garantia de vida eterna nos dá o grande apóstolo da gentilidade! Aquilo que os olhos nunca viram, que os ouvidos nunca ouviram, e que nunca subiram ao coração do homem são as que Deus reserva para aqueles que O amam. É o que nos lembra o nosso querido Jésus Gonçalves: “a morte lembra viagem rumo a júbilos distantes”, a coisas que nunca vimos. Para quem paga o pedágio do serviço aos semelhantes, para quem sai da casca do egoísmo sórdido e amesquinhado e abre os braços como Cristo de braços abertos na grande estátua do Corcovado - que causou admiração êxtase do Professor Pietro Ubaldi, que quando viu Cristo de braços abertos, disse: “Este é o meu Cristo, este é o Cristo que eu amo, o Cristo de braços abertos para todos, para abraçar a todos, para amar a todos”.

É isto que nos espera se nós pagarmos o pedágio da fraternidade, a pequena contribuição da bondade humana, de um gesto fraterno, de um carinho para quem nunca recebe carinho, de uma palavra de ternura para o solitário, para o triste, e um gesto de fraternidade para os humilhados, para os ofendidos de amor, para o simples, para os pobres, para os que vivem esquecidos e abandonados, para os solitários da estrada humana, este é o pedágio de que fala Jésus Gonçalves.
Nosso bom amigo Lúcio Teixeira, poeta gaúcho, nasceu em 1858 e faleceu no Rio, em 1926. Foi grande jornalista, grande publicista, profundamente interessado em assuntos espirituais. Escreveu obras científicas sobre o magnetismo, era um homem de cultura polimórfica, cultura imensa, e um grande coração. Diz Lúcio Teixeira sobre a morte:

Observa,
se te declaras descrente,
a fala da eternidade
na vida de uma semente.
Aqui havia uma árvore, não há mais uma árvore? Há sim. É que nós não estamos vendo a árvore que deixou de existir, que morreu ou foi cortada. Ela já se multiplicou muito e muito em centenas de outras árvores. Ela vive. Assim é a nossa alma nas sementeiras das vidas sucessivas, nossa alma na multiplicação das experiências múltiplas, das múltiplas encarnações terrestres. É a vida eterna, a beleza da semente que revive sempre, a semente que revive guardando a beleza da espécie aqui, ali, acolá, em outros cantos, em outras covas da Terra. Nós também, como sementes divina que somos, voltamos à Terra muitas vezes. Nos multiplicamos, nascemos e renascemos com a força viva e eterna da semente. Cada um de nós é uma semente da vida plantada no solo da eternidade.
Observa,
se te declaras descrente,
a fala da eternidade
na vida de uma semente.

Meimei, nossa querida amiga espiritual, muito amiga e companheira de longas jornadas:
Entre aqueles que se amam
a morte aparece em vão
pode plantar a saudade,
mas nunca a separação.
Que meiguice desta alma, que já nós sabemos tão carinhosa, tão amiga das crianças no plano espiritual! Alma que abriu em vida - e também depois da morte - seus braços amigos para o amor das crianças, para auxiliar os pequeninos. Deixou familiares na Terra e lá continua trabalhando, trabalhando e trabalhando, com todo carinho, e uma parte do seu carinho, muito de seu carinho, ela dedica à nossa Escola Jesus Cristo. Veja que beleza de palavras de esperança!
Entre aqueles que se amam
a morte aparece em vão
pode plantar a saudade,
mas nunca a separação.
Augusto Comte nas dizia que “os mortos não estão mortos, mas sim ausentes”. Ele não acreditava na imortalidade da alma, ele fala isso no sentido subjetivo, tão subjetivo como quando falou que “os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos”. Falava isso na lembrança dos nossos antepassados, daqueles que eram antes de nós e nos legaram a sua experiência, o seu valor, a sua sabedoria. Era no sentido subjetivo que ele falava. Mas o grande Victor Hugo, que foi espírita, modificou o conceito de Comte e disse: “os vivos não são ausentes, são apenas invisíveis”. E sem querer de forma alguma desrespeitar a expressão lapidar do grande romancista e grande poeta francês, nós diríamos: invisíveis, mas não sempre, porque às vezes eles se tornam visíveis. O fato é que nunca estão ausentes. Para Comte, “os mortos não estão mortos, estão ausentes”. Para Victor Hugo, “não estão ausentes, estão invisíveis”. Nós dizemos: “quase sempre invisíveis, mas sempre presentes”. Por isso Meimei nos fala assim:
Entre aqueles que se amam
a morte aparece em vão
pode plantar a saudade,
mas nunca a separação.
Eles estão sempre conosco, nos ajudando e nos protegendo. Podem estar a milhares de léguas de quilômetros de distância, mas o pensamento nos une. O pensamento é mais veloz que a luz, que viaja a mais de trezentos mil quilômetros por segundo. Eles estão presentes sempre, nas suas admirações, na sua proteção, no seu amor, que envolve e garante a cada um de nós a sobrevivência no mundo feroz, num mundo cruel, naquilo que o Professor Ubaldi chamou com muita razão de inferno terrestre. Se o poeta Amaral Ornelas diz assim, lembrando da Santa Mãe: “Ai do mundo se não fora a vossa missão de amor!”, nós também poderíamos dizer, parodiando o grande poeta: “Ai de nós se não fosse o amor dos espíritos, ai de nós se não fosse a proteção dos bens amados que já partiram, ai de nós se eles não velassem por nós pelo amor de Jesus Cristo, ai de nós se eles não fossem os anjos de Deus que nos amparam com suas asas de amor e proteção, ai de nós sem eles!”

Sílvio Fontoura - os mais velhos dentre nós certamente se lembram dele - fundador e diretor de um jornal que ainda circula, “A Notícia”, velho jornalista, grande poeta, polígrafo, conheceu o espiritismo. Embora não se tivesse dedicado a ele, tem escrito, por Chico Xavier, inúmeros e inúmeros versos, e tem trazido para psicografia de Chico outros campistas e outros amigos de nossa região Norte Fluminense para integrá-los no mesmo trabalho de difusão da Grande Luz. Eis o que diz Sílvio Fontoura, o nosso poeta campista:
Toda pessoa na Terra,
nesse ou naquele caminho,
nasce, cresce, vive e luta
morrendo devagarzinho.
É bom pensar: nossa Mãe Santíssima, quando ouviu as palavras do anjo, diz o evangelista Lucas, “guardou todas aquelas palavras, meditando-as no seu coração”. Vale a pena, é o nosso dever, apanhar todas essas palavras angélicas, estas palavras de benção espiritual, essas palavras de esclarecimento e de esperança e conferi-las no coração, guardá-las no coração ou, como dizem outras traduções do Novo Testamento, meditá-las em nossos corações. É bom pensar nisso, vale a pena, porque assim como lembra Carmem Cenira, nos grandes versos do “Parnaso de Além Túmulo”, nós não seremos apanhados pela morte como se apanha uma ave na floresta, como o caçador mata um passarinho na floresta. O passarinho está quietinho, lá num galho de árvore, o tiro o acerta e ele cai. É bom pensar, para não sermos vítimas de uma morte inesperada, para a qual estejamos, como tanta gente está, despreparados. Toda pessoa na Terra, nesse ou naquele caminho, no caminho do bem ou do mal, nasce, cresce, vive e luta morrendo devagarinho. Os biologistas, os cientistas de hoje, dizem que o homem começa a morrer na hora em que nasce, que o processo catabólico, o processo de dissolução, por mais incrível que isto seja, nasce com o anabolismo. É o metabolismo da vida, que é assimilação e desassimilação. A gente está crescendo, subindo e crescendo, mas já está começando a morrer - é o que cientificamente nos diz Silvio Fontoura.

Auta de Souza, nossa querida Auta de Souza, poetisa do Rio Grande do Norte, que desencarnou no início deste século, em 1901, portanto há 80 anos, nos fala aqui da sua experiência. Ela, que foi tão sofredora na Terra, nas lutas do dia-a-dia:
Caridade é o passaporte
para as mansões
da alegria que brilham
depois da morte.

Se Jésus Gonçalves fala em pedágio, Auta de Souza fala em passaporte. O que vem em duas alegorias, em duas imagens, significar mais ou menos a mesma coisa: esse passaporte é o amor, significando o direito de trânsito livre, trânsito aberto, sinal aberto para as mansões de alegria que brilham depois da morte. Nós sabemos que na casa de nosso Pai há muitas mansões. Quando Cristo disse “Na Casa de Meu Pai”, quis dizer que o Universo é um imensíssimo palácio de Deus. Ele certamente teve, na sua visão, o quadro dos palácios dos reis do Oriente. Aquele palácio imenso do rei, e em torno do grande jardim real, o jardim que envolvia o palácio real, aquelas mansões, aquelas casas imensas, bonitas, embora menores, mas bonitas, para os príncipes, para cada um dos filhos do rei. A visão magnífica daquele palácio imenso, o palácio real, a casa do pai, do rei, e, em torno, mansões e mais mansões para os príncipes. Essa é a imagem tirada de um quadro da Terra, de um quadro do Oriente, mas muito mais belo na imagem, no pensamento e na realidade espiritual que Jesus Cristo, nosso Mestre, nosso Senhor, nos traça, nos mostra e nos promete: “Na casa do meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar”. Noutras traduções: “Na casa de meu Pai há muitas mansões”. O Pai é o Grande Rei do Universo e “há muitas mansões”, não somente para alguns príncipes, mas para todos os Seus filhos, porque todos nós somos príncipes de Deus, cordeiros de Deus, como diz São Paulo. Todos somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, o grande filho, o filho unigênito de Deus.
Então, meus amigos, não é orgulho, não é prosápia, não é vaidade. É nós darmos valor ao status que Deus nos deu. Não ao status do mundo, não às posições idiotas do mundo, conseguidas, muitas vezes, pela hipocrisia, pela falsidade, pelas mordomias, pelas bajulações nojentas, mas o status que Deus nos dá: filho d´Ele, herdeiro d´Ele e co-herdeiro de Cristo. Isso é que é status, porque é dado pelo Criador do Universo, sem que nós precisemos mendigar coisa nenhuma a César, nem aos poderosos da Terra, nem aos exploradores dos homens, nem aos gananciosos do direito alheio, nem aos escravizadores do povo, nem aos massacradores dos infelizes. É Deus que nos dá essas riquezas. “Na casa de meu pai há muitas moradas”, “eu vou preparar-vos um lugar”. Nós somos príncipes de Deus. O Apocalipse diz: “Nós somos sacerdotes do Grande Rei”. Temos tantos títulos maravilhosos, que Deus nos dá de graça, sem mordomias sujas e porcas da corrupção terrestre.
Vêm aí as eleições. Muitos vão dar pérolas em forma de votos aos porcos esquecidos da nossa condição de filhos de Deus, nosso grande título de herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, nosso grande status, nossa glória! Esquecemos o melhor da vida para valorizar somente os titulozinhos, os poderezinhos, as glórias terrenas, as vaidadezinhas de um dia terrestre, que passa rápido. É uma loucura! Por isso um anjo de Deus chamou a um homem que queria grandezas na Terra: “Louco! Hoje mesmo virão pedir a tua alma! E aquilo que juntastes no mundo, para quem será?” Os anjos de Deus chamam essas pessoas de loucas! Não sou eu quem está chamando. É o anjo, na parábola de Cristo. Aquilo de querer juntar, enriquecer e derrubar celeiros, fazer maiores! E o anjo lhe disse: “Louco! Hoje mesmo virão pedir a tua alma! E aquilo que juntaste no mundo, para quem será?” Para os herdeiros brigarem? Os ódios se estabelecem e o pobre idiota fica nas trevas infernais, esquecido dos que ficaram, odiado pelos que ficaram, xingado pelos que ficaram. Que adiantou o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Este é o grande problema, um problema de cálculo, de valorizar as coisas, de entender o valor, de ter o critério dos valores, o conhecimento dos valores, não subornar os valores, de não emboscar os valores da vida. “De que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

Oscar Batista foi mineiro de nascimento, mas viveu aqui bem perto de nós, em São Fidélis e em Cambuci. Desencarnou em 1951. Que surpresa para mim quando, há uns poucos anos, fui, a convite de confrades, assistir à inauguração de um orfanato chamado Oscar Batista. Eu conheci Oscar Batista por essas quadras que Chico vem recebendo há muito tempo. Agora imaginem, meus irmãos, a minha alegria, quando depois de terminada a palestra em que eu falei também sobre Oscar Batista e li umas quadrinhas dele e, terminado tudo, aproxima-se de mim um jovem já maduro, e ao me abraçar, com lágrimas nos olhos, diz assim: “O senhor não me conhece, eu sou daqui de Cambuci. Sou filho de Oscar Batista, filho do lugar onde, com alegria, este Oscar Batista tanto trabalhou e lutou!” Esse nosso amigo, desencarnado desde 1951, portanto há 30 anos, nos diz sobre a morte:

Semeia bênçãos de amor
vive sempre atento a isto:
feliz o trabalhador
que a morte encontra em serviço.
Que beleza! Sempre servindo! Nós somos chamados, por São Paulo, cooperadores de Deus. São Paulo usa muito isso – cooperadores. Que quer dizer cooperador? Cooperador quer dizer aquele que trabalha junto de alguém, com alguém. Que glória a nossa! Mais um título que não foi conseguido à custa de lambuja, de hipocrisia humana nem de bajulações aos poderosos, aos barões, aos chefões, aos mafiosos. Título que Deus nos dá - cooperadores de Deus. Disse Cristo: “Deus trabalha sem cessar e eu continuo a Sua obra”. São Paulo vem e diz que nós somos cooperadores de Deus! Deus trabalha e nós trabalhamos com Ele!
Meus amigos, já estamos com tantos títulos maravilhosos! Filhos de Deus, príncipes de Deus, sacerdotes de Deus, cooperadores de Deus, herdeiros de Deus! E andamos ainda querendo bajular mais coisas? Para sujar a nossa alma? Sujar das mãos sujas dos barões imundos, das mordomias e das corrupções políticas e administrativas do mundo? Gente podre espiritualmente, má, perversa, castradora, maldosa, opressora, esmagadora dos humildes, dos pobres, dos humildes de coração, dos pacíficos? Inimigos de Deus, gente do anti-Sistema, das forças do mal! E Cristo nos convida: “Vinde a mim a todos vós, que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei!”, “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas”, “Tomai sobre vós o meu julgo, porque o meu fardo é leve e meu jugo não é pesado”. É verdade que ele nos dá um jugo, uma direção, uma teoria, mas não é pesado isso! Pesado é o jugo do mundo, que massacra. Como diz nas “Grandes Mensagens”, recebidas por Pietro Ubaldi, “O mundo parece semear rosas, mas na verdade semeia espinho. Eu lhes ofereço espinhos, mas ajudarei a colher as rosas”.
Semeia bênçãos de amor
vive sempre atento a isto:
feliz o trabalhador
que a morte encontra em serviço.
Gil Amora, outro poeta também desconhecido, mas cheio de beleza nas suas mensagens:
Para quem viveu amando
a humanidade sofrida
a morte quando aparece
é o grande prêmio da vida.
Vejam, meus amigos! A morte é o grande prêmio da vida as pessoas. Querem prêmios? Loterias? Concursos para ganharem coisas? Até os livros agora vêm com propaganda de prêmios, ciclos de livros, prêmios, prêmios, cinco chevrolets, tantas geladeiras, prêmios, todos querem prêmios, tudo vem com prêmios! É o chamariz para as compras, para o comércio. Prêmios, prêmios, prêmios e todos se esquecem que o grande prêmio da vida é justamente a morte. Aquilo que o poeta Manuel Bandeira - que não teve a felicidade, em vida terrena, de conhecer as coisas espirituais embora fosse uma bela e grande alma - Manuel Bandeira chamou “a indesejada das gentes”. O grande prêmio da vida é a indesejada da gente, é aquela que ninguém quer, é aquela que muita gente fala: “Pára de falar em morte, pára com isso, você está fúnebre, você está com uma cara fúnebre, só fala em morte, pára, por favor, de falar em morte que eu já não agüento mais!” A pessoa fica nervosa, dá escândalo, dá chilique, “Pára com história de morte que eu não agüento mais! Pelo menos em minha presença, pára com essas histórias! Eu não acredito nisso, pára com isso! Vamos falar na vida, na alegria, nos prazeres da vida! Pára com morte!” E a voz imperativa do machão dominador, do marido massacrador, do homem sem “Complexo de Cronos” na cabeça e no coração diz: “Pára, pára de falar nisso!” E deixou de ganhar o grande prêmio da vida, “a indesejada da gente”, na linguagem de Manuel Bandeira.
Para quem viveu amando
a humanidade sofrida
a morte quando aparece
é o grande prêmio da vida.
Para terminar, que o relógio assinala, Maria Dolores, nossa querida Maria Dolores, a grande poetisa baiana, amiga das crianças, sendo casada e não tendo filhos do seu matrimônio, adotou crianças, e sempre crianças e mais crianças! Que belíssimo exemplo! Algumas filhas são hoje professoras de sociologia nos Estados Unidos, outras estão lá no Ceará, todas formadas, todas trabalhando, todas abençoadas e guardando o exemplo, o carinho e a saudade da sua grande mãe terrena, Maria Dolores. É dessa grande alma, que eu tive a felicidade de conhecer pessoalmente, na Bahia, a última quadra que eu quero ler. Esta última quadra, esta última nota da grande libertadora:
Quem aceita as próprias lutas
fazendo o bem ao vence-las
recebe a noite da morte
toda enfeitada de estrelas.
Vejam, meus amigos, o que é a morte para os justos, para aqueles a quem a Escritura chama “os justos” - aqueles que vivem nos caminhos de Deus, que aceitam as próprias lutas, as provas da vida, as dores, as confusões, as crueldades da vida, os massacres da vida, o rolo compressor da vida, quem aceita a Grande Palavra.

Um comentário:

Juliana disse...

Oi, pai!
Belíssima reflexão no dia de finados! Como não tive oportunidade de ver meu avô pregando, será uma enorme alegria ler algumas pregações que ele fez! Aguardo ansiosamente o livro!
Bjs