sexta-feira, setembro 29, 2006

A PIEDADE


" A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes. Vossas lágrimas são um bálsamo que lhes derramais nas feridas e, quando, por bondosa simpatia, chegais a lhes proporcionar a esperança e a resignação, que encanto não experimentais! Tem um certo amargor, é certo, esse encanto, porque nasce ao lado da desgraça; mas, não tendo o sabor acre dos gozos mundanos, também não traz as pungentes decepções do vazio que estes últimos deixam após si Envolve-o penetrante suavidade que enche de jubilo a alma. A piedade, a piedade bem sentida é amor; amor é devotamento; devotamento é o olvido de si mesmo e esse olvido, essa abnegação em favor dos desgraçados, é a virtude por excelência, a que em toda a sua vida praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e tão sublime.

Quando esta doutrina for restabelecida na sua pureza primitiva, quando todos os povos se lhe submeterem, ela tomará feliz a Terra, fazendo que reinem aí a concórdia, a paz e o amor.

O sentimento mais apropriado a fazer que progridais, domando em vós o egoísmo e o orgulho, aquele que dispõe vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor do próximo, é a piedade! piedade que vos comove até às entranhas à vista dos sofrimentos de vossos irmãos, que vos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e vos arranca lágrimas de simpatia. Nunca, portanto, abafeis nos vossos corações essas emoções celestes; não procedais como esses egoístas endurecidos que se afastam dos aflitos, porque o espetáculo de suas misérias lhes perturbaria por instantes a existência álacre. Temei conservar-vos indiferentes, quando puderdes ser úteis. A tranqüilidade comprada à custa de uma indiferença culposa é a tranqüilidade do mar Morto, no fundo de cujas águas se escondem a vasa fétida e a corrupção.

Quão longe, no entanto, se acha a piedade de causar o distúrbio e o aborrecimento de que se arreceia o egoísta! Sem dúvida, ao contacto da desgraça de outrem, a alma, voltando-se para si mesma, experimenta um constrangimento natural e profundo, que põe em vibração todo o ser e o abala penosamente. Grande, porém, é a compensação, quando chegais a dar coragem e esperança a uni irmão infeliz que se enternece ao aperto de uma mão amiga e cujo olhar, úmido, por vezes, de emoção e de reconhecimento, para vós se dirige docemente, antes de se fixar no Céu em agradecimento por lhe ter enviado um consolador, um amparo. A piedade é o melancólico, nas celeste precursor da caridade, primeira das virtudes que a tem por irmã e cujos benefícios ela prepara e enobrece. - Miguel. (Bordéus, 1862)Evangelho Segundo o Espiritismo Cap.13, ítem 16.

Temos duas acepções principais para Piedade.
A primeira, mais conhecida, que é a abordada pelo espírito Miguel no Evangelho Segundo o Espiritismo, é a da compaixão, da comiseração pelo sofrimento alheio. Ele nos lembra uma coisa muito simples, é possível que abafemos os nossos sentimentos. Vejam que analogia forte! Sentimento abafado é um sentimento asfixiado, impedido de sobreviver.
Neste mundo de ansiedade e pressa, é realmente fácil para o ser humano produzir uma hipóxia na sua emotividade. Fala-se muito hoje nos transtornos afetivos. São a coqueluche da moderna psicologia comportamental. São transtornos emocionais onde está comprometida a capacidade do ser humano de sentir.
E assim como é necessário buscar um exercício prático pra desenvolver habilidades técnicas corporais e intelectuais, como o atletismo, as ciências, é possível também exercitar a nossa capacidade de sentir. Jesus teve piedade da multidão com fome (Mt 15:32).
O apóstolo da gentilidade nos pede:

"Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da vida presente e da futura." I Tm 4:8.


Ele mesmo, como um homem culto, que na época foi educado como um romano, deve ter exercitado as artes corporais. A sua cultura física era helênica e é possível que Paulo tivesse tido uma formação atlética na sua juventude, parte de sua aculturação romana. é por isso que ele faz a analogia do exercício da piedade com os exercícios corporais. Ora, o ocidente exercita o corpo isoladamente do seu espírito. Sabe-se que na cultura oriental, da qual os gregos herdaram o "mens sana in corpore sano" é uma autêntica fusão do somático com o psíquico. Um iogue enquanto faz sua prática física, está em comunhão com Deus.

E é justamente esta a segunda acepção de Piedade. O sentimento religioso, o amor pelas coisas celestiais, a devoção a Deus, o culto ao que é sagrado, o sentimento de religiosidade e de sacralidade.

E como são desconhecidas do homem moderno estas questões. A vida prática e sofisticada tornou-nos distantes do Temor a Deus. Temos Medo das coisas que nos são apresentadas pelos obsessores para nos afastar de nossos deveres e esquecemos de respeitar aquilo que é realmente sagrado. Banalizou-se a religiosidade, intelectualizou-se o homem , perdeu a confiança na suficiência de Deus como gerador e mantenedor da vida. A hipertrofia da ciência afastou-nos de Deus, mas fragilizou-nos o espírito a ponto de sermos vítimas da instabilidade emocional moderna. Somos fóbicos frente ao mundo e intimoratos frente a Deus. Não fazemos o que é certo por que temo medo e fazemos o que é errado por que não respeitamos ao Senhor.
Que ironia! Que confusão!
Paulo previu isso na sua segunda epístola a Timóteo:

"Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil.
Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados,
desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons,
traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus,
ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te!
Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulheres carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões,
sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da verdade.
Como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes homens de coração pervertido, reprovados na fé, tentam resistir à verdade.
Mas não irão longe, porque será manifesta a todos a sua insensatez, como o foi a daqueles dois. (II Tm 3:1- 9)


Essa geração é a nossa. Somos vítimas da impiedade. Buscamos todos os meios para nos euforizar artificialmente por que não obtemos mais alegria de viver. Queremos fazer muitas coisas, por que não sabemos mais ficar parados. Queremos barulho das bandas de rock, rolando as pedras, as pedras dos bárbaros, dos australoptecos, dos hooligans, dos skinheads, dos funkeiros...E de tanto barulho não escutamos mais a voz de Deus nos procurando, nos chamando, nos advertindo...
Essa fase de impiedade dos tempos modernos é muito grave, pois permitimos que nossos corações endurecessem, como nos previu Paulo.
Jesus também disse o que tem o mesmo significado que estas duras palavras de Paulo:

"E, ante o progresso crescente da iniqüidade, a caridade de muitos esfriará."(Mt 24:12)

Esfriar é uma ação que nos dá idéia de duração. O amor, a caridade enfraquece paulatinamente, por causa do crescimento da impiedade. A impiedade cresce no terreno fértil do individualismo, da vaidade, das insaciáveis necessidades materiais, da competitividade, do ciúme, do afastamento da verdade. Foi a isso que Paulo se referiu, quando deu o exemplo dos magos egípcios que resistiram a Moisés. Eles conheceram a verdade pela ciência, mas resistiram no coração. Estamos hoje defrontados com uma multidão que quer cada vez mais buscar o materialismo por causa dos seus benefícios aparentes. Quem buscar cada vez mais o materialismo por causa das comodidades proporcionadas por ele.
E busca abafar, asfixiar a fé e o amor que existem dentro de todos nós, pois somos feitos à imagem e à semelhança de Deus.
Assim, exercitar a Piedade compaixão no exercício da caridade cristã e não deixar arrefecer dentro de nós o respeito pelas coisas espirituais, pelo Amor a Deus, pela religiosidade, pelo reconhecimento de que existem níveis da existência que estão acima de nossas concepções estreitas e que a reverência pela vida, é também amar a Deus. Sentir o próximo como se fôssemos nós mesmos, é também amar a Deus.
E repetir com Jesus o mandamento máximo:

"Achegou-se dele um dos escribas que os ouvira discutir e, vendo que lhes respondera bem, indagou dele: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe. (Mc 12:28:31)

3 comentários:

Juliana disse...

Eu AMEI a palestra!
Bjs

Celso disse...

Flávio: muito oportuno e bonito o comentário sobre a piedade em suas duas acepções. Deixamos esfriar a piedade como misericórdia e a piedade como devotamento às coisas do espírito. Ao ler suas palavras, lembrei-me do apelo do bom ladrão Àquele que tem grande piedade de todos nós: "Senhor,lembra-te de mim quando entrares no Teu Reino."

Nildete disse...

Olá Flavio,que o soberano senhor permaneça a guiar-ti.Penso que estamos passando por um periodo de transição,por tanto,necessitamos resgatar,se posso assim dizer, esse sentimento sublime ao qual já somos conhecedores,ou seja,começarmos a exercitar a PIEDADE de forma objetiva e concreta,real,acender essa virtude precursora da caridade,palavras do Messías:NÃO PONHAIS A CANDEIA DEBAIXO DO ALQUEIRE.
Muita Paz!