segunda-feira, março 13, 2006

DESESPERANÇA: ENTRAVE DA FÉ

Depois disso, houve uma festa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Há em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, que tem cinco pórticos. Nestes pórticos jazia um grande número de enfermos, de cegos, de coxos e de paralíticos, que esperavam o movimento da água.[Pois de tempos em tempos um anjo do Senhor descia ao tanque e a águase punha em movimento.E o primeiro que entrasse no tanque,depois da agitação da água, ficavacurado de qualquer doença que tivesse.] Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. Vendo-o deitadoe sabendo que já havia muito tempo que estava enfermo, perguntou-lhe Jesus: Queres ficar curado? O enfermo respondeu-lhe: "Senhor, não tenho ninguém que meponha no tanque, quando a água é agitada; enquanto vou, já outro desceu antes de mim." Ordenou-lhe Jesus: "Levanta-te, toma o teu leito e anda." No mesmo instante, aquele homem ficou curado, tomou o seu leito e foi andando. Ora, aquele dia era sábado. E os judeus diziam ao homem curado: "E sábado, não te é permitido carregar o teu leito." Respondeu-lhes ele: "Aquele que me curou disse: Toma o teu leito e anda." Perguntaram-lhe eles: "Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?" O que havia sido curado, porém, não sabia quem era, porque Jesus se havia retirado da multidão que estava naquele lugar.. Mais tarde, Jesus o achou no templo e lhe disse: "Eis que ficaste são; já não peques, para não te suceda coisa pior." Aquele homem foi então contar aos judeus que fora Jesus quem o havia curado. Jo 5:1-15


Já falei sobre este tema no tópico "Queres ficar curado?", pretendo todavia, enfocar um outro aspecto: o da Desesperança, como agente bloqueador do fluxo da fé!
A paisagem constante do texto é a de uma fonte de águas intermitentes que desembocam numa piscina pública em Jerusalém. Diz o texto que a piscina era cercada por doentes entre os quais cegos, surdos e paralíticos.
O paralítico em questão encontrava-se lá, esmolando havia 38 anos. Muito tempo. Parece que acomodara-se à sua posição de pedinte e já não era interessante para ele àquela altura de sua vida, perder o seu meio de sustento que era a esmola para ter que trabalhar. Habituara-se à humilhação, à indignidade, à indigência e já não se importava com sua reputação. Os que queriam curar-se aproveitavam-se de sua desesperança e pensavam que era menos um na concorrência.
Ele não buscava ajuda nas portas das casas de câmbio, nas portas das bolsas de valores, nos grandes balcões de negócios, nas avenidas movimentadas do comércio. Por que? Por que sabia de antemão que o homem que sai de casa para comerciar e buscar fazer crescer o seu patrimônio está hipnotizado pelo egoísmo. Quando vamos ao comércio, aos bancos, aos investimentos, à busca de negócios, não temos olhos e nem ouvidos, sensibilidade enfim, para a dor humana. Ao contrário, tememos encontrar algum entrave ao nosso projeto econômico no caminho, pois o negócio, o investimento, a poupança, o dólar, a cotação... não podem esperar. Dia D, hora H. Caso contrário, perde-se rios de dinheiro.
Esta a razão do paralítico de Betesda nunca ir aos centros comerciais e financeiros de Jerusalém para pedir dinheiro. O tanque era um logradouro religioso. Ali estavam os aflitos e sobrecarregados do mundo. E o paraplégico morava junto à piscina. Dormia à sua margem, tinha uma cama onde vivia deitado. Ali todos eram irmãos na dor. Os que possuíam bens, estavam alquebrados pelo sofrimento. E faziam donativos aos pobres, visando uma graça espiritual da cura. Procurou ficar junto dos que estavam oprimidos e humilhados pela doença física e mental. Também podemos hoje testemunhar como as pessoas que possuem bens, se tornam mais compassivas coma dor alheia quando sofrem.
Assim, o paraplégico de Jerusalém acomodou-se a sua vida de mendicante e estava assim por quase quarenta anos. Teria Jesus cerca de 32 anos quando esta narrativa se deu. Logo, 20 anos antes, quando de seu "Bar Mitzvá", (cerimônia de iniciação religiosa dos meninos judeus), em Jerusalém, um jovem chamado Jesus poderia ter avistado um homem paralítico à borda do tanque de Betesda, onde já estaria há 18 anos. Transcorridos 20 anos, Jesus teria se impressionado ao reencontrar-se com a mesma impressionante personagem de sua adolescência. Quantos de nós vivemos uma vida inteira paralisados e encantados com as nossas limitações? O poder limitante de uma lesão orgânica exerce uma ação estupefaciente sobre o nosso cérebro. Identificamo-nos com a nossa doença e passamos a dizer: sou asmático, sou cardíaco, sou hemiplégico, sou depressivo. E habitualmente nos identificamos com as nossas doenças com uma finalidade específica. Não há perda sem ganho. Ninguém fica enfermo e perde apenas. O estado de auto-piedade paralisante nos promove a uma condição diversas vezes favorável ao nosso ego. Estamos dispensados de diversas necessidades do gênero humano: trabalhar, lutar, progredir, ler, orar, crer, ter fé, ter esperança, alegria, compreensão, empatia, simpatia, amabilidade... tudo por que não temos este ou aquele órgão, por que estamos sem esta ou aquela função orgânica. E existem exemplos dos que superam suas limitações. Stepehn Hawking, um doms maiores físicos de todos os tempos, só pode mexer um dedo, por causa de uma Esclerose Lateral Amiotrófica. Os atletas hemiplégicos disputam as para-olimpíadas, jogam basquete, vôlei, nadam, correm. Não têm auto-piedade.
Jesus questiona ao hemiplégico: "Queres ficar curado?"
Não há registro nos quatro evangelhos de Jesus Ter perguntado se o doente gostaria de se curar. Apenas este! Queria?
Parece que não tinha tão intensa vontade, pois não respondeu prontamente que sim, senão que acusou os demais de não ajudá-lo a pular na piscina no momento aleatório do fluxo da fonte. Jesus então, mesmo diante de tal desolação, ordena-lhe: "Levanta, toma a tua cama e anda!" Não está escrito que Jesus falou brandamente, mas com autoridade. Ordenar que se levante é ao mesmo tempo curar o corpo e o espírito estagnado na paralisia psíquica.
Este é o tema da Campanha da Fraternidade da CNBB de 2006: "Levanta e vêm para o meio!" Acorda! Desperta do teu hipnotismo e vem juntar-se aos que tem vontade. Junta-te àqueles que gostam de viver e de trabalhar pela vida. Sai do marasmo, da inoperância, da acomodação, do conformismo. Jesus não quer que nos conformemos com o mundo. Quer que, através de nossa vontade, o transformemos!
O ex-paralítico então, aturdido, levantou-se e começou a carregar o seu leito no dia do Shabat. Como os sacerdotes o reconheceram pois estava há décadas no mesmo lugar, abordaram-no levando em consideração não o fato estupendo de sua cura, mas o fato de estar fazendo um trabalho no Sábado. Neste momento o homem comete a sua Segunda tentativa de desviar-se do foco das questões a ele levantadas. Na primeira vez foi quando tentou escamotear a pergunta de Jesus sobre se ele realmente queria se curar: jogou a culpa nos outros. Agora, curado, carregando uma cama, questionado por exercer esforço físico no dia do descanso, ele transfere a responsabilidade da falta para Jesus.
Na primeira vez, ele quase que demonstrava que apesar de não querer ficar bom, não podia admiti-lo. Necessitava de uma desculpa. Ninguém o colocava nas águas a tempo. Mas a piscina era cercada de paralíticos. Nenhum havia logrado tal graça? Em 38 anos, nunca se deu a possibilidade, nem ao menos durante ás noites frias, de ele se jogar primeiro, usando os braços como apoio? Em 38 anos? Dias e noites?
Depois de curado, fato absolutamente insólito, não enfrenta a ira dos sacerdotes invejosos. Descarta a culpa e diz que aquele que o curou é que tem a responsabilidade de ele estar desrespeitando o Sábado. Parece-me uma atitude bem covarde!
Jesus encontra novamente e só lhe diz uma coisa: "Cuidado, não volte a cometer os erros que tem cometido, pois as conseqüências podem ser mais graves que a sua paralisia." Ou talvez: " Você era um acomodado! Quando libertei-o de sua psico-letargia, você tornou-se um venal delator. E então? Você considera uma atitude digna de um homem, após ser curado de uma enfermidade incurável, ainda acusar o seu médico por uma coisa torpe como a da qual te acusaram meus inimigos?"
Ou mesmo assim: "Você não se envergonha de tamanha covardia e ingratidão? Acusar-me de uma coisa tão tola diante da grandeza de sua cura? Você não percebe que foi uma atitude maliciosa dos sacerdotes para me incriminar e justamente você me entrega?"
"Cuidado ! Não voltes a cometer estes absurdos que você cometeu! Não seja um mendigo acomodado! Não seja um ingrato! Não seja um delator! Não seja um homem venal! Por que se você continuar com essa atitude de total falta de caráter, não será vítima de paralisia, mas de uma doença pior ! Deus não se deixa enganar: o que o homem plantar, certamente colherá"
Então arrepende-se o paraplégico curado e apresenta-se aos mesmos sacerdotes declarando que havia sido curado por Jesus Cristo!
A desesperança nos bloqueia a fé! Por isso Paulo falou na Epístola aos Coríntios: "Restam a Esperança, a Fé e a Caridade!" Sem Esperança, a Fé se desvanece, fica impedida de se manifestar em todo o seu esplendor!
Este paralítico permitiu que a desesperança convertesse sua vida numa desolação! Estagnou o seu espírito junto com o seu corpo, culpou os demais, aproveitou-se de sua auto-piedade para justificar a indolência da alma. Curado, preferiu esquivar-se da responsabilidade do não cumprimento de leis menores e caindo na ingratidão e no malcaratismo. Foi advertido e arrependeu-se!
Que seja este nosso caminho! Mesmo quando a desesperança bloquear a nossa Fé, lembremo-nos das palavras de Jesus: "Não retornes aos erros que te produziram este estado do qual está curado! Pois da próxima vez será pior."






Um comentário:

Marina - marigbf@gmail.com disse...

Parabens pelo blog!
Excelente o texto!
Agradeco sua iniciativa caridosa de presentear os leitores com sabias palavras.
Deus o abencoe!