domingo, março 08, 2009

ABORTO E ESTUPRO


Recentemente, em função da gestação gemelar produzida por um ato violento de um padrasto sobre uma menina de apenas 9 anos, levantou-se a questão em meio espírita: e as gestações causadas por estupro, autorizam o aborto? No caso da menina, grávida de gêmeos, por atos de submissão sexual aos quais era submetida, bem como a sua irmã de 14 anos, portadora de deficiência física, é lícito a interrupção da gravidez? Como médico e espírita, sinto-me compelido a opinar segundo estas diretrizes superiores em minha existência. O ginecologista José Severiano Cavalcanti, que atendeu a menina de 33 quilos e um metro de trinta e três centímetros de estatura, na unidade de saúde, antecipou que o aborto será necessário para não por em risco a vida da criança mãe. "Ela tem nove anos, mas sua idade cronológica não bate com sua estrutura física franzina, subnutrida. Ela não tem pélvis para suportar uma gestação de gêmeos. Não tem seios desenvolvidos e sequer pelos pubianos". O médico disse que se for preciso fará um laudo atestando que a criança não tem condições físicas de prosseguir com a gravidez e que indicaria o aborto para preservar a sua vida.
Do ponto de vista jurídico, a legalidade corre por conta do estupro. A legislação brasileira permite que mulheres de qualquer idade, comprovadamente vítimas de violência sexual, possam interromper a gravidez em serviço médico público ou credenciado pelo poder público até o quarto mês de gestação.

Do ponto de vista reencarnacionista, temos que partir de premissas. Segundo a doutrina espírita, o livre arbítrio, isto é, a autonomia da decisão, é do autor do ato. No caso da criança grávida de gêmeos, de 9 anos, com um metro e trinta centímetros de estatura, o livre arbítrio, o poder de decisão, ficou com a mãe e com os médicos. A criança é incapaz perante a lei, de decidir o seu destino, cabendo à responsável, a decisão. Na minha vida de médico, tenho escutado inúmeras histórias de crianças e adolescentes abusadas sexualmente por seus padrastos e em alguns casos, por seus próprios pais. Em muitos destes casos, a mãe esforça-se para não admitir o que é quase evidente.

Outra premissa é que a nossa existência não é única, somos espíritos reencarnantes.
Não podemos deixar de considerar como básico para a discussão de que de acordo com a Lei de Causa e Efeito, todos somos responsáveis por nossos atos, como disse Paulo aos Gálatas: “Não erreis. De Deus não se zomba. O que o homem semear, isso mesmo colherá.” Nosso Deus não castiga, ensina através das múltiplas existências, sucessivas e solidárias.
No caso da menina, a vítima, sabemos que está ela, submetidas às leis universais, assim como o infeliz que a violentou.

Não há ação divina nesta situação. Deus não “permitiu” que isso acontecesse. Deus não foi passivo e acobertou um ato bárbaro destes. As insondáveis circunstâncias de um passado remeto estão ainda ressonando no caso presente. Mas esta é uma investigação impossível de ser realizada por nós. Ao ler os livros do espírito André Luiz, vislumbramos, mormente nos maravilhosos, “Sexo e Destino”, “Ação e Reação” e “E a Vida Continua”, casos como este, sob a ótica da espiritualidade. Seria maravilhoso estudar as circunstâncias espirituais que antecederam este ato brutal e a concepção de dois espíritos, num útero infantil. Queria o Pai de sabedoria imensa que estes gêmeos nascessem de um aparelho ginecológico imaturo? Gerado por ato brutal e provocando na vítima, quem sabe, a própria desencarnação em caso de um parto de alto risco? Estas são questões inescrutáveis, para às quais dirigimos o nosso pensamento a Deus e rogamos por todos os envolvidos encarnados e desencarnados. Não esperemos por orar por todos os participantes deste enredo tenebroso. No passado remoto, a criança vítima é um espírito, o padrasto bruto, é um espírito, a mãe da vítima, mais ou menos inocente quanto ao fato que ocorria com as suas filhas sob o seu próprio teto, provocado por um estranho que ela aceitou na sua casa. Aceitar um homem e permitir que ele conviva não apenas com ela, mas também com suas filhas, é um ato de responsabilidade de uma mulher separada judicialmente do marido, pai das crianças. E é também um questionamento que o pai pode fazer diante do juiz. Tem a mãe consciência de que antes de resolver seu problema de solidão e carência afetiva e/ou sexual, tem ela um dever sagrado de resguardar a integridade de suas tuteladas? Isso é muito sério.

Quanto aos espíritos reencarnantes, que também são espíritos eternos, estão sujeitos a possibilidade de frustração de sua tentativa de reincorporação ao planeta. Espíritos que livremente escolhem essa provação, como o Segismundo, de “Missionários de Luz”, do mesmo André Luiz, psicografado pelo nosso querido Chico Xavier, sabem de antemão, da pequena faixa de sucesso de sua tentativa.

Tudo isso é reaproveitado pela Grande Lei, para os resgat4es, para os ajustes finos de nossos imensos débitos espirituais. “Até mesmo os cabelos de vossas cabeças estão contados.”
Estamos aqui tratando especificamente do caso desta pré-adolescente impúbere, que foi vítima de uma violência doméstica e concebeu gêmeos.

Não estou referindo-me a qualquer caso de estupro, que estão classificados pelas Leis de Deus entre as necessidades espirituais de todos os envolvidos. Estou me referindo ao caso desta criança pernambucana, entretanto, a gestação e o possível parto quiçá, cesáreo, poderia acarretar a morte materna.

O dilema é resolvido pelo Livro dos Espíritos, que autoriza, na questão 359, o aborto para resguardar a vida materna: "Dado o caso em que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda? — Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe."

Em casos em que não haja do ponto de vista médico, risco de vida à mãe, consideramos que é um direito do espírito reencarnante, de nascer. Maior direito do que o da mãe de escolher se quer mesmo ser mãe ou não.

Quanto ao fato de o arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso Sobrinho, haver dito que todos que participaram do aborto e o apoiaram estavam automaticamente excomungados da Igreja Católica, mas que o padrasto da menina, não poderia ser punido com a excomunhão, considero um grave erro doutrinário. Não em termos Espiritismo, mas em termos de Cristianismo, sem considerar a reencarnação.
Pois a mãe seguiu o seu instinto de proteção à sua filha menor.
Os médicos seguiram a lei humana e à ciência.
E quanto ao padrasto, perdoado pela Igreja, seguiu instinto bárbaro e bestial.
Não consigo admitir que a instituição que se arvora no direito de ser a única representante do Cordeiro de Deus na Terra, cometa uma absurdidade deste porte.

Lula, nosso presidente, chocou-se tanto quanto eu, com a diferença de que ele é católico: “Como cristão e como católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento conservador como esse. Não é possível que uma menina estuprada por um padrasto tenha esse filho, até porque a menina corria risco de vida”, declarou Lula durante o lançamento do Programa Território de Paz, em Vitória, no Espírito Santo.

O Vaticano ratificou a decisão do bispo brasileiro e o cardeal Giovanni Battista Re, presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, do Vaticano, defendeu em uma entrevista neste sábado a excomunhão da mãe da menina de 9 anos que fez um aborto depois de ter sido estuprada pelo padrasto. "É um caso triste, mas o verdadeiro problema é que os gêmeos concebidos eram duas pessoas inocentes, que tinham o direito de viver e que não podiam ser eliminados", afirmou ao jornal italiano La Stampa.

Quero reafirmar que não estou defendendo o aborto em caso de estupro, em casos gerais. Mas sim no caso específico desta menor, que configura um caso de preservação da vida de uma criança. É certo, como diz o bispo, que os nascituros tinham também o direito à vida, entretanto, desde que esse direito não fosse ao preço da vida de uma jovem violada na sua inocência infantil.

Na visão espírita, creio que isso está corroborado pela inteligente palavra dos espíritos a Kardec.
Quanto à opinião dos prelados católicos de que o estupro é um pecado menor que o aborto, eu só posso lamentar, visto que o ato de abusar sexualmente de uma criança, que constitui a pedofilia, é um dos crimes mais cometidos por padres da Igreja. Estariam desse modo, os que assim opinaram, em ato falho, atenuando a culpabilidade de seus membros pedófilos? Sinto algo estranho no ar. Ao defender monstros, os padres estão de certa forma banalizando a violência sexual. Faz-me lembrar certo político bufão, que é, por si só, uma caricatura na cena política brasileira, ao comentar um ato de estupro seguido de morte da vítima: “Está com desejo sexual? Estupra, mas não mata!”
Parafraseando esta pérola, poderíamos colocar na boca de alguém que considera o aborto de uma criança vítima de estupro, pior que o estupro: “Está com desejo de praticar a pedofilia, estuprando uma menina? Estupra. Mas, você, mãe da vítima, ou você, médico da vítima, mesmo percebendo que a menina não pode suportar a gravidez, não permita o aborto.”
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6 comentários:

Centro de Artes Kapitar disse...

Querido, bom dia!

Você não sabe o quanto gostei de ler este post! Isso porque você com sua lucidez e serenidade conseguiu expressar sua indignação, de forma em que eu pudesse indicar a leitura a outras tantas pessoas. Porque eu, desse meu jeito, ao ler sobre este caso, expressei minha indignação de um modo bem diferente.
Conversava com a Denise, uma amiga virtual, Pernambucana, sobre o caso... sobre o arcebispo de Olinda e Recife indo aos jornais informar a excomunhão de TODOS os envolvidos no aborto. Menos a menina, pq tem menos de 18 anos. "A igreja é muito benévola, quer dizer, sobretudo com as pessoas de menor" segundo o bispo. Hãã?!!!! Tão boazinha que que não excomungou o padrasto.
Seria patético se não fose tão perigoso... Se não fosse uma atitude tão nojetnta e vergonhosa pra milhões de católicos que levam a sério sua crença, seria motivo para boas piadas.
Eu, em meu estágio evolutivo - ainda muito, mas muito inferior - só consegui expressar minha indignação xingando. E muito, diga-se de passagem. Essa a verdade.

Mas, foi muito bom ler o seu post... Aliás, se me permite, repassarei link para leitura. Indispensável, no meu entender.

Beijos e bom dia!
Aucilene

Juliana Tavares disse...

Lamentável a posição do bispo perante o ocorrido. Lamentável a política de transformar vítimas em culpados e culpados em vítimas, como tb ocorreu em outro caso recente, da moça atacada por neonasistas que está agora sendo processada. Acredito que os católicos não partilhem da opinião desse bispo. Que Deus tenha piedade de todos esses monstros espalhados pela Terra, que violentam diariamente crianças inocentes e também de todos aqueles que acobertam seus atos. Deus é soberanamente justo e bom e saberá com sabedoria julgar cada ato praticado.

tavares disse...

Flávio, meu querido, a sua explanação confere com a minha, pois sei que o Nosso Pai(DEUS) que é justo e bondoso, saberá melhor julgar o caso. Entretanto, como os Espíritos já declararam através de Allan Kardec conforme voce mesmo citou, escrito no Livro dos Espíritos, somente posso lamentar que opinões de leigos da Lei de Deus, como os teologos padres da Igreja Católica Apostolica Romana, que ainda insistem em reviver a Inquisição, não tiraram as venda dos olhos. Continuam no escuro espiritual.
Parabéns, pelo lindo comentário.
Cláudio Tavares

Moyses Hosha disse...

A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA
Miguezim de Princesa

I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão. anarsio

Irmão Sol, Irmã Lua disse...

Flávio,
Muito a propósito e esclarecedoras suas palavras. O parabenizo pela iniciativa e pela forma clara e objetiva com que responde as questões que surgem em nós mesmos e comenta o lamentável caso, dentro da ótica cristã-espírita.
Abraço fraterno,
Benjamin.

Flávio Mussa Tavares disse...

Flavinho, eu faço parte desse grupo " um curso em milagres" daquela física Ana Sharp que esteve em Campos, lembra-se? Como você fez uma abordagem parecida, embora mais completa, mesmo assim estou lhe enviando este comentário que achei bem espiritualizado. Beijos, Mamãe

Por favor, parem por um instante e conectem seu coração com a mensagem desse
ser iluminado que é Jean Yves Leloup que nós, de Brasília, temos o
privilégio de poder ouvir uma vez por ano.

Tais reflexões são fundamentais para nos restituir à Sabedoria Divina que em
nós reside e cuja voz, o mais das vezes, preferimos não ouvir, privilegiando
rotineiramente as vozes que vêm de fora, não importando quanto distoem
daquilo que a nossa essência anseia expressar.

Sintam-se todos por ELE abençoados.

Ada

A Resposta de Jean Yves Leloup

Pergunta:

Uma menina de nove anos é estuprada pelo padrasto e engravida de gêmeos. A
justiça e a medicina concordam que ela não sobreviveria à gestação e
concordam com o aborto. Os arcebispos de Olinda excomungam todos os
envolvidos no aborto desde a diretora do hospital ao motorista da
ambulância, a enfermeira que desinfeta os instrumentos, médicos e a mãe da
menina. Em sua opinião, como reatar a conexão com o Divino neste ato da
Igreja Católica?

Jean-Yves Leloup:

Nós poderíamos perguntar o que teria feito o Cristo. Eu acho que Ele não
teria escutado nem o juiz nem o arcebispo, Ele teria ido ver a menina para
cuidar dela e escutar, naquele momento, aquilo que a Vida estaria Lhe
inspirando.

É claro que se a vida da mãe e a vida da criança estão em perigo é preciso
escolher que ao menos um dos dois sobreviva, se os dois não podem
sobreviver. Depois, é preciso escutar o sofrimento desta menina e, o que
pode ser ainda mais difícil, saber o que conduziu o padrasto a esta atitude.

Contudo, tanto em um caso como em outro, nós não estamos em uma atitude de
julgamento, em uma atitude onde devamos fazer isto ou aquilo. Trata-se de
escutar a pessoa que está sofrendo, escutar aquilo que a Vida deseja nela,
pois a vontade de Deus é a vontade da Vida que quer viver.

Como acrescentar sofrimento ao sofrimento? O que pode nos parecer dramático
é o fato da culpa ser acrescentada ao sofrimento - acrescentamos mal ao
mal....

No Evangelho, nós nunca vimos Jesus excomungando alguém e, antes de tudo,
será que é possível excomungar alguém? O diabo não pode nos separar de Deus
se permanecermos fiéis à Sua Presença. Se o diabo não pode nós separar de
Deus, um arcebispo também não!

Confesso que há alguma coisa que eu não compreendo nisto tudo: é este
encadeamento de excomunhões. Se eu estivesse de mau humor, eu diria que a
única pessoa que o arcebispo não excomungou é o padrasto que é o culpado...
No entanto, não é essa a questão. Nenhuma igreja, nenhum ser humano tem o
poder de nos excomungar: nós não podemos separar um ser da Fonte do Ser,
não podemos separar a consciência da Fonte da Consciência, mas podemos
envenenar e perturbar a vida dos outros...

Isso é grave. Normalmente, a função da igreja não é a de nos envenenar a
vida, mas a de curar o nosso sofrimento, de aliviar a nossa dor. Aliviar a
dor dessa menina, aliviar a dor daqueles que a cercam e não culpabilizar
aqueles que estão tentando ajudá-la, pelo contrário, ajudá-los no seu
discernimento para saberem o que é melhor para essa menina.

Essa é a função da igreja. Não é sua função condenar ou excomungar, senão
ela se tornará uma instituição como qualquer outra que está a serviço do
poder e o poder sobre as almas é algo muito perigoso, mais perigoso do que o
poder sobre os corpos. É por isso que sempre é bom voltarmos aos Evangelhos
ou, simplesmente, voltar ao nosso coração e não nos deixarmos impressionar
por leis externas, mesmo as leis religiosas. A lei a qual obedecemos é a lei
da Vida e o espírito que está em nós é o Espírito da Vida. É isso que dirá
São Paulo. Não dependemos mais de leis externas. Trata-se de escutar a Vida
em nós, de escutarmos a Luz em nós, de escutar o Amor em nós, de escutar a
Presença do Eu Sou que É, porque aí está o discernimento. No entanto,
algumas vezes é preciso coragem para encarar estas instituições que talvez
estejam se esquecendo dessa dimensão do ser. Muitas vezes, estas
instituições são vítimas de suas próprias ideologias.

É interessante escutar os argumentos do arcebispo de que não devemos
destruir a vida. Mas vocês podem sentir que a sua teoria está separada da
realidade. Seus grandes princípios, que não são ruins, esquecem aquele caso
em particular. E existem apenas casos particulares. Não podemos legislar de
uma maneira geral porque o amor é sempre o amor por um caso em particular. O
que é verdadeiro para um pode não ser verdadeiro para o outro. A nossa
prática de meditação pode nos ajudar a nos tornar atentos a essa via
interna, a essa lei interna, que não julga a priori, nem com princípios
políticos, nem com princípios médicos, nem com princípios religiosos, mas
que está em contato com a Realidade; que escuta o que a Vida em outra pessoa
e o que a Vida em nós pede.

Talvez essa seja a condição para exercermos um ato justo, uma condição que
deixe o nosso coração em paz mesmo que, à nossa volta, nós não compreendam.
É importante o critério dessa paz interna, esse sinal de que existe uma
unidade no interior de nós mesmos.

Penso nas palavras de São Serafim de Sarov: "Encontre a paz no interior de
você mesmo e uma multidão será salva ao seu lado..."

Ache a paz no interior de você mesmo e você descobrirá o gesto justo que não
vai ser uma ideologia, ou um grande princípio, mas o respeito pela Vida na
sua fragilidade e na sua vulnerabilidade.

Teríamos muito a dizer sobre todas essas questões, mas o que eu acho
importante é que cada um descubra a resposta que vem do seu interior.
Ninguém tem o direito de pensar no seu lugar. O papel de um ensinamento, o
papel de uma comunidade ou de uma igreja não é dizer o que devemos fazer,
aquilo que é bom e o que é ruim, mas de nos dar elementos para esclarecer o
nosso discernimento, para que nós nos tornemos inteligentes, uma
inteligência esclarecida e iluminada pela compaixão.